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Continuo a minha autofagia para depois sobre minhas próprias cinzas ficar a fazer ventania

Caetano Dias, <em>Canudos - Acção com Urucum sobre corpo no Morro da Favela</em>, 2015–16. Performance. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Canudos - Acção com Urucum sobre corpo no Morro da Favela, 2015–16. Performance. Cortesia da artista.

Quero antes referenciar o meu processo de trabalho. É um comentário essencial. Entre o final dos anos 90 e início da década seguinte, comecei a trabalhar com o mundano digital, que naquele momento eu denominava como “Santos Populares”, tipo de fabulação ainda presente no meu trabalho atual. O processo em si era bastante simples. Qual seja, buscava imagens em sites pornôs e fazia uma apropriação de tais figuras para depois modificá-las, transformando-as numa espécie de “santinhos”, isto é, figuras semelhantes a materiais impressos, geralmente de baixo custo, contendo imagens e informações religiosas ou político partidárias para distribuição gratuita.

Após essa apropriação, levava estas imagens para edição digital e reduzia-as a tamanhos ínfimos para em seguida inverter o processo, ampliando-as a tamanhos enormes. Isso gerava ruídos na estrutura bidimensional da imagem, em que os pixels passavam a deformar a representação plana. Com isso, tornava essas imagens nebulosas, transfiguradas pela perda de definição e profanação dos seus pós-sentidos, um meio para tentar subverter a representação. A esse método de trabalho, eu chamei de “estratégias para perda de sentido”.

De certa maneira, isso está presente ainda hoje no que faço. Ou seja, a ideia de desmontar estruturas, ao ponto em que não sobre quase nada, para em seguida remontar, tentando aproximar o signo inicial para uma outra significação completamente estranha à original. Se inicialmente era mundana, passava a ser deslocada para uma direção oposta, nesse caso para o sagrado.

Este se tornou o meu lugar, ao menos temporariamente. Usar o antagônico como método laboral era em alguns momentos um tanto conflitante por causa da minha formação católica bastante rígida. Por outro lado, isso chegou a ser bastante estimulante ao acirrar o já desmontado “eu” e os restos de meus sistemas de crenças, para tentar exercitar minhas incertezas. Então, não tendo as minhas antigas crenças religiosas, ideológicas, etc, restou-me apenas a possibilidade de coexistir com as idiossincrasias naturais e relacionais do cotidiano.

Caetano Dias, <em>Cristo de Rapadura</em>, 2003. Escultura em acçúcar bruto e madeira e fotografia. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Cristo de Rapadura, 2003. Escultura em acçúcar bruto e madeira e fotografia. Cortesia da artista.

Deste modo, restou-me a magia existente nas possibilidades de fabulações para tentar moldar a realidade no lugar onde tudo é quase possível, a ficção. Neste lugar, o erro é uma recombinação de caminhos regidos por Exu, orixá mensageiro entre as divindades e a humanidade. É interessante citar Exu nesse momento porque temos aqui um reencontro com o sagrado de segunda mão em cruzamentos que levitam com as ideias, espaço em suspensão em que acontecimentos arranham a realidade. Como de resto, a vida também tende a ter algo de imprevisível ao seguir os seus caminhos.

Foi importante citar brevemente essas ideias, pois elas dão sentido a todo o meu processo artístico. Eu vinha explorando a ideia de perda de sentido, de vertigem. Primeiro, com a exposição de pinturas na Capela do Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM-BA (1996). Depois com as imagens mundanas bidimensionais. Em seguida com a instalação Sobre a Virgem (2002), no Paço das Artes, para depois chegar à ideia de algo que se consome, de algo comestível. Tudo isso passa pela noção de autofagia. O que no meu entender, pós-antropofagia, pois não apenas consome-se a cultura do outro, mas simultaneamente consome-se a si mesmo. Aí cheguei à eucaristia do corpo de Macunaíma, ou a autofagia enquanto processo de existência. Nesse momento entra o açúcar como conceito na alegoria do corpo de um Cristo negro (2004) reproduzido em rapadura. Esse corpo de cristais de açúcar é a encruzilhada onde tudo perde sentido para ser pleno em seu caos.

A história brasileira? Costumo ter como referência o sermão do Padre Antônio Vieira (1608–97) em que ele compara o calvário da servidão do homem de origem africana ao calvário de Cristo, ou seja, a matriz usada como referência para as relações de trabalho, grosso modo, suor e sangue em troca de nada. E haveria de se ficar grato por tanto. Assim tem sido o trabalho em nossa história. Por isso, quando represento o Cristo crucificado sobre uma encruzilhada de madeira-de-lei brasileira, retirada de nossas florestas, estou tentando questionar os nossos modos relacionais com o outro e com as coisas. Claro que no universo da arte tanto o conceito quanto à estética é relativo a quem os usa. No meu caso, continuo a minha autofagia para depois sobre minhas próprias cinzas ficar a fazer ventania.

Caetano Dias, <em>Cabeças de Açúcar</em>, 2007. Esculturas em açúcar fundido, moldes de voluntários de várias etnias. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Cabeças de Açúcar, 2007. Esculturas em açúcar fundido, moldes de voluntários de várias etnias. Cortesia da artista.

Ainda sobre as questões que me movem para o que faço, não poderia comentar somente sobre os trabalhos com o açúcar que continuam a avançar independentemente da minha vontade, pois nesse decurso surgiram outras matérias da mesma natureza como o urucum, ossos, etc. Na viagem pela III Bienal da Bahia (2014), em companhia do também artista Juraci Dórea até a cidade de Canudos, aconteceu algo inesperado, uma experiência sensorial, mística. O desafio era para ser apenas um couro diferente do usado nas instalações montadas por ele nos campos do sertão baiano. O tal couro não encontrei em parte alguma. Porém me deparei com uma saca de urucum na cidade de Monte Santo, e também um chocalho desses de boi ou bode. Pareceu-me naquele momento que faria parte do processo, ainda em sua fase inicial. No último instante a ação foi se construindo e de repente me vi envolvido em um ritual com o urucum no Morro da Favela em Canudos.

Isso não foi apenas uma performance, mas uma reconexão com o sagrado quando no ocorrido senti o transe, em que de alguma maneira me conectei com a energia do lugar, com a carga histórica do massacre ocorrido ali. Foi tudo muito intenso. É o pó da história brasileira entrando por cada poro do meu corpo. Nunca pensei que viesse a me envolver com algo de caráter místico de maneira tão linda. Depois do auto desfazimento da minha religiosidade, este espaço naturalmente não poderia ficar vazio embora eu não me preocupasse em ocupá-lo com outros sentidos.

Caetano Dias, <em>Rio Doce – Urucum sobre corpo</em>, 2015–16. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Rio Doce – Urucum sobre corpo, 2015–16. Cortesia da artista.

Dessa experiência desdobraram-se as seguintes obras entre os anos de 2015 a 2016: Recôncavo em que na ação eu tingia as águas na maré vazante com urucum; já em Paraguaçu pintei com o mesmo material comestível parte da mata, em Canudos foi o uso do urucum e ossos encontrados no Morro da Favela de Canudos, com Rio Doce foi entre bateia e urucum com água contaminada do rompimento da Barragem da Samarco realizada no rio de mesmo nome, Entre Terras e Águas, Céu de Chumbo e Como Contar a um Povo Morto a sua Historia/Alfabeto Sinestésico de Canudos. Todos estes trabalhos são constituídos com materiais comestíveis ou com processos relacionados ao que há de atávico na natureza humana e suas “coisas” como na obra Levante Negro. Nela, além das cabeças de açúcar fiz um ritual no Mangue de Saubara, pertencente ao Recôncavo da Bahia para a coleta do lodo que foi usado em sua instalação—gostaria de salientar que esta ação foi realizada em parceria com a comunidade de pescadores e catadores de seres do mangue.

Quando fiz a instalação Canto Doce—Pequeno Labirinto (2006), estava implícito o sentido lúdico do açúcar em relação aos passantes da Estação Ferroviária da Calçada, em Salvador, que liga atualmente o subúrbio ferroviário ao que se costumava chamar Cidade, em referência à Cidade Baixa, margeada pela Bahia de Todos os Santos. Essa estrada de ferro, a antiga LESTE, ligava a Cidade da Bahia à cidade de Juazeiro no Rio São Francisco e foi idealizada pela antiga Junta da Lavoura para servir como meio para escoar o açúcar e outros produtos agrícolas. Contudo, as produções dos canaviais entraram em decadência a partir da metade do século passado por conta da mecanização da lavoura não ser adequada a topografia acidentada do Recôncavo Baiano, entre outras causas. Na atualidade não restou quase nada da produção de cana-de-açúcar. E da antiga ferrovia não sobrou muito. Enquanto isto a antiga mão de obra escrava, provida apenas com o nada, permanece e continua nas áreas periféricas como o subúrbio ferroviário.

Caetano Dias, <em>Canto Doce - Pequeno Labirinto</em>, 2006. Instalacção, dimensões variaáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construiídos com acçúcar fundido. Estação Ferroviaária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Canto Doce - Pequeno Labirinto, 2006. Instalacção, dimensões variaáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construiídos com acçúcar fundido. Estação Ferroviaária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.

Caetano Dias, <em>Canto Doce - Pequeno Labirinto</em>, 2006. Instalação, dimensões variáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construídos com açúcar fundido. Estação Ferroviária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Canto Doce - Pequeno Labirinto, 2006. Instalação, dimensões variáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construídos com açúcar fundido. Estação Ferroviária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.

Caetano Dias, <em>Canto Doce - Pequeno Labirinto</em>, 2006. Instalação, dimensões variáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construídos com açúcar fundido. Estação Ferroviária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Canto Doce - Pequeno Labirinto, 2006. Instalação, dimensões variáveis Fragmento de labirinto, em forma de dois “U” fora de eixo, construídos com açúcar fundido. Estação Ferroviária da Calcçada - antiga LESTE, Salvador, Bahia. Cortesia da artista.

Portanto, simbolicamente em meu trabalho, o açúcar seria a ironia do abandono, quando fica evidente que o sermão de Padre Antônio Vieira só fez sentido para os senhores de escravos que ainda riem. E para os pretos nunca foi de bom cabimento, nem no passado nem em momento algum. Disso tudo restou apenas o desamparo e a resiliência dos pretos nos terreiros das mães e pais de santo, além dos pardos, historicamente excluídos, até os nossos dias, sem lugar de resistência ou voz, invisíveis socialmente.

Em 2010, recebi um convite para realizar uma mostra individual no Palácio da Aclamação, em Salvador, que é uma antiga casa de governo localizada no sítio histórico da antiga Vila Velha, primeira ocupação portuguesa em terras da Cidade da Bahia, e onde hoje funciona, também de mesmo nome, o Teatro Vila Velha, onde a Tropicália balbuciou seu início. E juntando o fato de ser uma casa de governo em desuso, quase em ruína, e estando naquele momento em ano eleitoral, aliado a tudo isso estava para mim a presente história de Catarina Paraguaçu e de Diogo Álvares-Correia.

Está na história que a ameríndia de nome Guaibimpará, filha do Morubixaba Taparica, da nação Tupinambá, casou-se com o português Diogo Álvares-Correia, conhecido como ”Caramuru”. A nau, chegando da Europa, em que vinha Diogo, naufragou no mar do Rio Vermelho, em 1509, e a tripulação da embarcação foi morta pelos tupinambás, sobrevivendo apenas o Diogo por disparar o mosquete sobre uma ave e com isto os indígenas assustados gritaram: Caramuru—que significa “homem do fogo”. Também contou para ser poupado o sonho ou visão da índia Paraguaçu que anteviu o naufrágio da nau. Então, o Caramuru passou a viver entre os tupinambás, e assim teve início a dominação portuguesa sobre os ”negros da terra” e seu lugar nativo.

Juntei todas essas peças e percebi que havia em minhas mãos um movimento de peças único no jogo a ser articulado para discutir a história em curso e, ao mesmo tempo, recorrer ao passado. Então fiz uma obra, um site specific, que também discutia a política atual e embaralhei todas as peças desse jogo para arremessar sobre as paredes daquela antiga construção histórica. Essa também é a história que dá origem às obras Bicho Geográfico e Delírios de Catharina. O termo delírios faz referência ao sonho da negra da terra e também à orgia de sangue ocorrida na ocupação da Bahia e do Brasil durante a colonização portuguesa e na inescrupulosa exploração da mão de obra escrava que ainda perdura em muitas situações na atualidade. Como dito antes, nesse trabalho também temos encruzilhadas somadas em camadas que perpassam a história da Bahia e do Brasil, o território, o poder e seus personagens, além da minha própria história e da minha família.



Caetano Dias (1959) é natural de Feira de Santana, estado da Bahia. Seu trabalho visual inicia-se no final da década de 1980 através da realização de performances, intervenções urbanas e pinturas murais após sua formação em letras vernáculas na Universidade Católica de Salvador entre 1985 e 1987. Sua pesquisa articula o sagrada e o erótico através da realização de vídeos, pinturas, obras tridimensionais, instalação multimídia e fotografia digital. Entre 1995 e 2008, ministrou cursos nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Contributor

Caetano Dias

Caetano Dias (1959) was born in Feira de Santana, state of Bahia. His visual work began in the late 1980s through performance, urban interventions and mural paintings after his training in vernacular letters at the Catholic University of Salvador between 1985 and 1987. His research articulates the sacred and the erotic through realization videos, paintings, three-dimensional works, multimedia installation and digital photography. Between 1995 and 2008, he taught courses in the workshops of the Museum of Modern Art of Bahia.

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