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Claudia Andujar: anthropophagie?, fényképezés, yanõmami!

Claudia Andujar, <em>Sem título, Catrimani</em> da seérie “A floresta,” 1972–76. Filme infravermelho digitalizado e impresso a jato de tinta com pigmento mineral em papel Hahnemuühle Photo Rag Baryt. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.
Claudia Andujar, Sem título, Catrimani da seérie “A floresta,” 1972–76. Filme infravermelho digitalizado e impresso a jato de tinta com pigmento mineral em papel Hahnemuühle Photo Rag Baryt. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.

“Não tenho mais tempo para fotografar. Na verdade, faço muito mais que isto, fotografia, que é uma coisa mínima” — Claudia Andujar

Os diferentes processos de contato desencadeados pela colonização das terras já habitadas do “Novo Mundo” incentivaram, além da desintegração de muitos povos, figuras de expressão e estratégias como a antropofagia. Tais estratégias foram requisitadas a responder questões que concernem a realidade indígena diante da história e, na cena artística, receberam sentidos diferentes de diferentes artistas, especialmente a partir dos anos 1960. Nesse contexto, há um interesse pela antropofagia e como ela se relaciona com o trabalho de Claudia Andujar, fotógrafa brasileira nascida na Suíça, que passou a infância na Transilvânia antes da Segunda Guerra Mundial, forçada a se mudar para os Estados Unidos e então imigrar para o Brasil em 1955. Uma parte importante de seus trabalhos, desde a década de 1970, está comprometida com a causa Yanomami na Amazônia, com destaque para os ensaios e séries fotográficas como Sonhos Yanomami, Marcados, A casa ou A Floresta, O Reahy. Assim, embora acompanhasse o cotidiano e a cultura xamânica do mundo Yanomami, sua fotografia prescinde da antropofagia e parece mais ligada a um pacto afetivo que Andujar fez com as pessoas que fotografou, como veremos nos três pontos seguintes.



Anthropophagie?

A partir da leitura de textos sobre a fotografia de Andujar, como Carolina Soares, Ana Maria Mauad, Thyago Nogueira, Lisette Lagnado, Davi Kopenawa, Bruce Albert e Laymert Garcia dos Santos, averiguei que tais contribuições não abordaram a produção da fotógrafa em termos de uma ressignificação das estratégias ou temas antropofágicos. Ao invés de levarem em consideração imagens e representações de grupos indígenas em termos de uma antropofagia contemporânea, a capacidade de Andujar em estabelecer vínculos de cumplicidade, o ativismo político e a experiência visual são as principais interpretações acerca de sua fotografia. Uma única exceção é a proposta curatorial de Paulo Herkenhoff nas exposições A espessura da luz (1994) e Na sombra das luzes (1998), que foi parte da 24º Bienal de São Paulo, conhecida como Bienal da Antropofagia. Mas até o próprio Herkenhoff deixou claro que as suas escolhas de uma “fotografia antropófaga” estavam principalmente dirigidas a Miguel Rio Branco, cuja obra tem uma ligação muito mais colorida, barroca, violenta, carnavalesca e simbólica com a tradição cultural e visual da antropofagia. Esse posicionamento comparativo nos ajuda a localizar o projeto fotográfico de Andujar sobre os Yanomami como algo diferente de uma estratégia antropófaga, ao mesmo tempo que delimita com mais precisão o que pode e o que não precisa necessariamente ser considerado como tal.

Claudia Andujar, <em>Sem título, Catrimani</em> da série “A floresta,” 1972–76. Filme infravermelho digitalizado e impresso a jato de tinta com pigmento mineral em papel Hahnemuühle Photo Rag Baryt. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.
Claudia Andujar, Sem título, Catrimani da série “A floresta,” 1972–76. Filme infravermelho digitalizado e impresso a jato de tinta com pigmento mineral em papel Hahnemuühle Photo Rag Baryt. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.

Outro caminho para elaborar o quão antropofágica a fotografia de Andujar pode (ou não) ser, está na busca por vestígios e comentários no próprio discurso da fotógrafa. E o significativo número de entrevistas que Andujar realizou em diversas ocasiões, principalmente a partir dos anos 2000, é uma memória-ato primorosa para entender os caminhos que ela trilhou e almejou em termos de fotografia e ativismo. Por exemplo, ela explica que “agora, depois de duas décadas de empenho quase exclusivo da defesa de seus direitos [dos Yanomami], sinto a necessidade de me abstrair e sintetizar esse trabalho fotográfico que vivenciei de forma tão intensamente”. Essa intensidade aparece para conferir autoridade ao trabalho com o extenso arquivo visual Yanomami e seu conjunto de fotografias realizadas na região amazônica com instrumentos e procedimentos experimentais, como filmes infravermelhos, filtros coloridos (amarelos, azuis), assim como fazer circular tais imagens em livros fotográficos.



Fényképezés

Expandindo a interpretação de que os temas indígenas podem significar em sua relação com o trabalho de Andujar e a própria fotografia, aproveitei esta oportunidade para prestar mais atenção justamente nas próprias definições possíveis de Andujar sobre fotografia. Isto porque a natureza tanto tecnológica quanto política e cultural da fotografia é parte integrante do processo de instabilidade sistêmica do contemporâneo, que tenta permanecer no tempo, contextualizando-se em novas visualidades e condutas de vida.

Claudia Andujar, <em>Atiçando o Fogo, Catrimani</em> da série “A Casa,” 1974. Gelatina e prata no papel brilhante Ilford Multigrade Classic 1K. Cortesia do artista e Galeria Vermelho.
Claudia Andujar, Atiçando o Fogo, Catrimani da série “A Casa,” 1974. Gelatina e prata no papel brilhante Ilford Multigrade Classic 1K. Cortesia do artista e Galeria Vermelho.

Chamo a atenção especialmente para a experiência afetiva de sua trajetória pessoal e fotográfica, e que parece se aproximar do que a teórica da fotografia Ariela Aisha Azoulay chama de evento fotográfico, ou seja, como o “resultado de um encontro entre vários protagonistas que podem assumir várias formas”, com a participação de uma câmera, com a leitura de imagens fotográficas ou ainda com o mero conhecimento de que uma fotografia foi (ou poderia ter sido) produzida. Neste sentido, a fotografia auxiliou Andujar a se colocar no lugar do outro, procurando se aproximar de pessoas e grupos sociais e, com isso, estabelecer tipos de diálogo, entendimento, empatia e compartilhamento de vulnerabilidades. Este direcionamento de Andujar faz mais sentido ainda se lembrarmos dos caminhos percorridos por ela, de sua infância na Transilvânia húngara de então, passando por Suíça, Estados Unidos e finalmente Brasil. Fényképezés, Photographie, Photography, Fotografia.



Yanõmami!

Por conta de sua atuação ativista e produção fotográfica estarem diante da experiência indígena – sua prática cotidiana e sua cosmologia yanomami – a estratégia da fotografia de Andujar parece diferenciar-se consideravelmente das estratégias culturais que nos remetem à antropofagia. O que podemos destacar é a efetiva indistinção entre a afetação da vida e a prática fotográfica, não mais segundo as expectativas vanguardistas, e sim a partir da impossível neutralidade diante da vinculação entre fotografia e vida, (neutralidade esta ainda estranhamente presente em parte da fotografia antropológica ou científica). E essa distinção acontece porque o engajamento poético e político trilhado pela fotógrafa permite que ela experimente a afetividade e cumplicidade do evento fotográfico, evitando a redução da imagem ao exótico atualizado e esquivando-se de oferecer os yanomami como espetáculo colonial.

Claudia Andujar, <em>As folhas de ubim que cobrem a maloca serão substituídas no período das chuvas, Catrimani</em> da série “A Casa,” 1974. Gelatina e prata no papel brilhante Ilford Multigrade Classic 1K. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.
Claudia Andujar, As folhas de ubim que cobrem a maloca serão substituídas no período das chuvas, Catrimani da série “A Casa,” 1974. Gelatina e prata no papel brilhante Ilford Multigrade Classic 1K. Cortesia da artista e Galeria Vermelho.

A fotografia em Andujar tornou-se o reconhecimento dos limites e potencialidades de sua contribuição em relação ao outro: “o que eu tinha que dizer através da fotografia sobre os yanomamis, eu coloquei”, nas palavras da fotógrafa. Esse posicionamento revela a realização de um projeto fotográfico que demanda a participação, cooperação e quiçá o compartilhamento com outros protagonistas. Um tipo de compartilhamento que Eduardo Viveiro de Castro entende como um pacto ou diálogo entrebiográfico e um projeto político convergente (não isento de dificuldades). A fotografia de Andujar procura dinamizar e entrelaçar as contribuições entre as partes engajadas e envolvidas em parcerias para a constituição de uma narrativa comum e, ao mesmo tempo que evidencie pontos de vista heterogêneos, que são comparados, traduzidos e negociados através da fotografia. A sua afetividade fotográfica parece residir ainda no fato de não recusar aos índios uma interlocução estética e filosófica radicalmente ‘horizontal’ com nossa sociedade, como a contemporaneidade absoluta dos yanomami.



André Pitol (1989) é pesquisador na área de artes e tem experiência de pesquisa em projetos e cursos sobre Fotografia e Arte. Atualmente no doutorado, investiga a curadoria de projetos artísticos contemporâneos e é integrante do Grupo de Pesquisa em Arte, Design e Mídias Digitais (GP_ADMD), da ECA-USP.

Cláudia Andujar (1931) é uma fotógrafa de origem húngara, nascida na Suíça e naturalizada brasileira. Sua carreira fotográfica tem mais de 60 anos, dedicados ao fotojornalismo e ao ativismo na causa dos índios yanomami na Amazônia, cooperando com a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY).

Contributors

André Pitol

André Pitol (1989) is a researcher working on artistic, educational and curatorial projects in São Paulo, Brazil with a focus on photography and art history. He is currently a PhD candidate in the Visual Arts program at the University of São Paulo and a member of the Research Group on Art, Design, and Digital Media (GP_ADMD).

Claudia Andujar

Claudia Andujar (1931) is a photographer of Hungarian origin, born in Switzerland and a naturalized Brazilian citizen. Her career as a photographer spans more than 60 years, dedicated to photojournalism and to activism for the cause of the Yanomami Indians in the Amazon, in cooperation with the Commission for the Creation of the Yanomami Park (CCPY).

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