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The Brooklyn Rail

FEB 2021

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FEB 2021 Issue
Critics Page Cartas aos Leitorxs

Só a Antropofagia Nos Une?

Retratos de Tiago Gualberto e Sara Roffino, lápis em papel por Phong H. Bui.
Retratos de Tiago Gualberto e Sara Roffino, lápis em papel por Phong H. Bui.

“ “O homem branco não tem medo, mas um dia terá.”” — Davi Kopenawa, Xamã e líder indígena Yanomami

A Antropofagia recebeu uma das mais instigantes formulações teóricas no Brasil. Seu batismo se deu a partir do encontro do poeta Oswald de Andrade com a pintura, ainda anônima, de Tarsila do Amaral em 1928. Entre as narrativas de criação do movimento antropofágico, consta a escolha pela origem indígena do título Abaporu a partir dos vocábulos tupi-guarani encontrados por Amaral e Andrade no dicionário Tesoro de La Lengua Guarani (1639–40), do missionário peruano Padre Antonio Ruiz de Montoya. Este dicionário servia de auxílio para as novas missões jesuíticas em seu trabalho de evangelização das populações indígenas nas Américas durante o período colonial. Logo, no título Abaporu a soma Aba (homem, pessoa) e Porú (comedor de carne humana) pode ser descrita como “homem que come gente” em uma referência às práticas antropofágicas de grande importância para o processo cultural dos indígenas Tupinambás. No entanto, logo abandonadas por pressão dos jesuítas.

Amaral e Andrade pertenciam à vanguarda de São Paulo que era principalmente branca, rica e de descendência europeia. Ambos também se destacaram entre os protagonistas da Semana de Arte Moderna, evento realizado em 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, reconhecido como o marco inaugural do modernismo no Brasil. A proximidade com a elite cafeeira e escravocrata não eliminou a resistência destes setores da sociedade paulistana em absorver as ideias em torno da proposta de vanguarda modernista, em especial, em um país marcado pela violência racial e desigualdade social. Basta lembrar que em 1928, data de lançamento do manifesto antropófago, completava-se apenas quarenta anos desde a abolição da escravidão, sendo o Brasil o último país do mundo a cumprí-la. Neste cenário, o movimento antropofágico buscou se firmar como uma verdadeira contribuição anti-colonialista para as artes e para o povo brasileiro. Ao menos, ao gosto de Andrade: “a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico1”.

Passaram-se algumas décadas de hiatos até que a Antropofagia se tornasse uma questão recorrente em diversos eventos da arte moderna e na agenda intelectual brasileira. A Tropicália dos anos 1960 talvez seja um dos movimentos de maior destaque para diferentes gerações de artistas visuais contemporâneos. Nomes conhecidos pelo público internacional, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, entre outros contemporâneos, continuam a reverberar como descendentes diretos e indiretos desta proposta inovadora de incorporação do outro. Como contribuição, esses artistas estabeleceram diálogos com os variados grupos da sociedade brasileira, construindo coletivamente propostas interventivas e de impacto tanto estético como também político e social. Isto ajudou a sedimentar demandas e questões a respeito do fazer artístico em terras brasileiras, sem, contudo, abandonar os intercâmbios com artistas de outros países e de distintas concepções de arte.

A Antropofagia também repercutiu entre artistas latino americanos e europeus, em especial no campo da literatura, e tornou-se bastante atraente em diversos países ao longo das últimas décadas do século XX. Um exemplo seria a citação proferida por Zygmunt Bauman, a partir de conceitos de Claude Lévi-Strauss, no livro O Mal-estar da Pós-modernidade: “Uma era antropofágica: aniquilar os estranhos devorando-os e depois, metabolicamente, transformando-os num tecido indiscernível do que já havia2”. Este exemplo de estratégia alternativa de assimilação do outro é oportuno porque demonstra o alcance destas ideias, além de circunscrever o gesto antropofágico, semelhante a Oswald de Andrade, em uma ação capaz de integrar o diferente a partir de suas qualidades, sem negá-lo ou reduzi-lo, incorporando-o de forma a configurar uma transformação irremediável. Aquele que digere, deglute e metaboliza o outro também passaria a se tornar um novo outro, uma nova configuração de si enriquecida pelos componentes presentes nesta refeição simbólica.

Por outro lado, diferentes fluxos de ideias já estavam presentes nas primeiras décadas do século XX—como na obra do artista visual Vicente do Rego Monteiro ou na revista Cannibale (1920) do artista francês Francis Picabia—convergindo e apontando muitos desafios na assimilação do outro frente à modernidade. Por isso, seria arriscado determinar as origens dessa periférica teoria cultural. Como destaca o pesquisador João Cezar de Castro Rocha, a Antropofagia poderia ser “uma definição metafórica da apropriação da alteridade3”, e não um esquema associado à definição de uma identidade nacional brasileira. Isso nos levaria ao risco de transformar a Antropofagia em uma teoria cultural de exportação. Neste sentido, Rocha parece compartilhar com muitos outros artistas e pensadores a recusa em transformar a Antropofagia em aperitivo brasileiro, inspiração exótica para satisfazer o consumismo cultural, isto sem levar em consideração outros perigos.

Entre eles, o uso da Antropofagia como tempero de um caldeirão cultural servido em ilustres banquetes onde a violência racial, a destruição exponencial da floresta e da vida animal, o aniquilamento dos saberes tradicionais e dos diferentes modos de ver o mundo fiquem de fora. Contra essa refestelança, uma diversidade de autores emergiram dispostos a reconsiderar a docilidade de certas interpretações a respeito da Antropofagia, sobretudo abertos a escutar vozes historicamente silenciadas.

Neste aspecto, os estudos pós-coloniais se somam às antigas lutas de diferentes grupos que se viam sem legitimidade dentro da desproporcional hierarquização de pensamento, seja dentro da universidade ou fora dela. A implantação de cotas raciais nas universidades públicas, a partir de 2012, é um bom exemplo de ações capazes de corroborar para o aumento da crítica à hegemonia das narrativas, aos cânones e à imposição de modelos classificatórios.

Então, o que dizem aqueles que se viram transformados em almoço ou escolheram se tornar parte de uma refeição indigesta? Quais seriam os ecos entres essas diferentes vozes? Como são as atuais condições deste banquete de assimilação marcado pelo retrocesso na conquista de direitos, pela crescente onda de autoritarismo que afeta gravemente as instituições democráticas brasileiras e pela iminência do colapso socioambiental somada à pandemia de COVID-19?

Para essa edição da Brooklyn Rail, pedimos para diferentes pensadoras, pensadores e artistas, a maioria brasileiras e brasileiros, considerar o significado da Antropofagia num contexto contemporâneo. Nosso objetivo com esse conjunto de textos e imagens é considerar a história desse conceito e como ele existe atualmente e se expressa dentro da arte contemporânea brasileira à medida que o centenário do movimento se aproxima. Quem consumiu e digeriu quem desde antes e depois de que Oswald de Andrade publicou o Manifesto Antropófago? O que significou para a natureza polivalente do Brasil as oscilações do poder político entre uma ditadura, a democracia e uma volta ao autoritarismo? A Antropofagia foi relevante em algum momento e/ou continua sendo agora?

Nesta multiplicidade de vozes, serão compartilhadas perspectivas a respeito da arte e da Antropofagia pouco observadas perspectivas a respeito da arte e da Antropofagia pouco observadas nos circuitos e instituições artísticas brasileiras. Entre os exemplos, Sandra Benites, a primeira curadora indígena a ocupar tal cargo em uma instituição brasileira, em 2019, apresenta sua perspectiva sobre a importância de conhecer a si mesmo frente ao contato com o outro, e como este processo vincula-se ao respeito e bem estar de todos os demais seres humanos e não-humanos, em especial da floresta. Rosana Paulino, a primeira artista visual negra a realizar uma exposição individual em um dos mais importantes museus da cidade de São Paulo, em 2018, compartilha imagens de sua pesquisa em torno da iconografia colonial e o lugar da mulher negra e, neste sentido, da não-existência da sua imagem. Contudo, essas presenças inaugurais em museus de São Paulo não podem ser tomadas como índices reveladores da participação destas populações ao circuito institucionalizado da arte. Ao contrário, “as posteriores gerações modernistas, bem como a arte contemporânea brasileira, serviram mais de alimento do que se alimentaram daquele espírito original”, alerta Renato Araujo da Silva.

Logo, o convite de sentar-se à fina mesa costuma envolver uma série de etiquetas. E por consequência, certas atitudes e posicionamentos podem rapidamente ser classificados como provincianismo, precariedade, indisciplina ou mesmo ausência de repertório. Neste ponto, as reflexões trazidas por Vivian Braga dos Santos, Luiz Renato Martins e Rafael Amorin ajudam a compreender o comportamento desviante à norma como um gesto inteligente, de resistência e, porque não dizer, de coragem. As presenças de Denilson Baniwa e Viviane A. Pistache são exemplos daqueles que não têm medo de conservar o que se têm, de dizer o que são, já que não estão dispostos a assumir o custo de aniquilar o outro. Estas decisões também são atravessadas por afetos e pela impossibilidade de se manter neutro diante do outro. Em suas contribuições, Thays Berbe e Milla Jung são artistas capazes de nutrir nossa capacidade de sermos afetados e de nos deslocarmos em direção ao outro. Ideia que permeia a leitura realizada por André Pitol dos trabalhos fotográficos de Claudia Andujar, em que apresenta-se a cumplicidade como forma de interlocução.

Contudo, rupturas, ataques e o exame do passado como parte das estratégias de reivindicação por justiça social também compõem o quadro de vozes desta edição. Maria Iñigo Clavo apresenta os parentescos conceituais entre as ideias de democracia racial e Antropofagia e como isso se reflete em diferentes âmbitos da sociedade brasileira. Por sua vez, Sergio Vaz recria o Manifesto Antropófago a partir de sua perspectiva periférica, convocando novos modos de engajamento político e estético. Já Caetano Dias examina a inversão da experiência cultural antropofágica ao expor a devoração de si mesmo como resposta à falsa promessa de integração social. Cripta Djan e o coletivo Os + Fortes testam os limites dessa capacidade de deglutição antropofágica das instituições ao tornar suas intervenções nas ruas e nos museus em exercícios de resistência à cooptação de suas práticas artísticas.

A edição não teria sido possível publicar sem as traduções sensíveis e rigorosas do Ramón Stern, parceiro em cada aspecto do projeto.

–Tiago Gualberto

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Esta edição da Critics Page do Brooklyn Rail evoluiu de uma conversa entre Tiago e eu há quase três anos. Ela se deu principalmente por meio de trocas de email, mensagens de WhatsApp, artigos compartilhados e avisos de exposições ao ritmo das amizades formadas no meio digital.

Nos conectamos inicialmente quando escrevia sobre a exposição de Tarsila do Amaral no MoMA, o que me levou a escrever outro trabalho sobre Antropofagia dentro da arte contemporânea brasileira muito inspirada pelos conhecimentos e artistas aos quais Tiago me introduziu. Ao longo dos anos, Tiago me ofereceu com generosidade seus saberes sobre arte desenvolvidos através de suas práticas como artista visual e dos vários anos em que trabalhou como pesquisador no Museu Afro-Brasil em São Paulo. Espero que as conversas continuem além dessas páginas. Agradeço a todos os escritores e artistas que confiaram em nós para publicar seus trabalhos, Ramón Stern por suas traduções excelentes e pela equipe corajosa e aguda do Brooklyn Rail por deixar que trouxéssemos o português para as páginas da revista.

—Sara Roffino

  1. In: Campos, Haroldo. Uma poética da radicalidade. In: ANDRADE, Oswald. Obras completas, v. VII: Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. p. 9–62.
  2. Zygmunt Bauman, O Mal-estar da Pós-modernidade, Tradução de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 18.
  3. Uma Teoria de Exportação? Ou: “Antropofagia como Visão do Mundo” – artigo de João Cezar de Castro Rocha, 2011, pg 662.


Tiago Gualberto (1983) é artista visual e pesquisador, onde destacam-se as participações em projetos desenvolvidos no Museu Afro Brasil, em São Paulo e em parceria com Design Studio for Social Intervention (DS4SI), em Boston. Atualmente integra o corpo de críticos de arte do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e participa da The Alternative Art School (TAAS) como instrutor convidado. Entre os prêmios recebidos, foi artista residente no Tamarind Institute, integrado a New Mexico University durante o programa Afro: Black Identity in America and Brazil, em 2012. Neste mesmo ano se destacou como finalista da categoria Artes Visuais do Programa Nascente, promovido pela Pró-reitoria de Cultura e Extensão USP e, em 2015, recebeu a Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros - Ministério da Cultura-Minc, por seu trabalho de mestrado em artes visuais, Lembrança de Nhô Tim (2016–18). Em 2017, Gualberto foi um dos dez líderes brasileiros selecionados para participar de uma mesa redonda com o Presidente Barack Obama em São Paulo em razão da realização de trabalhos artísticos e de intervenção social como o realizado através do Project Row Houses - Round 48, em parceria com DS4SI, em Houston.

Sara Roffino é editora da ArtSeen.

Contributors

Sara Roffino

Sara Roffino is an ArtSeen editor.

Tiago Gualberto

Tiago Gualberto (1983) is a visual artist and a researcher, who has stood out for a number of projects including those at São Paulo’s Afro-Brazil Museum and his partnership with the Design Studio for Social Intervention (DS4SI) in Boston. He is currently part of the body of art critics at the São Paulo Cultural Center (CCSP) and an invited instructor at The Alternative Art School (TAAS). He has received the following prizes: artist in residence at the Tamarind Institute at New Mexico University for the program Afro: Black Identity in America and Brazil (2012); the same year, he was a finalist in the category of Visual Arts of the Programa Nascente, promoted by the Office of the Provost for Culture and Extension at the University of São Paulo. In 2015, he received the Funarte (National Foundation for the Arts) Scholarship for Black Artists and Producers from the Ministry of Culture for his Master’s project in the visual arts, Lembrança de Nhô Tim (Souvenir from Massa Tim, 2016-18). In 2017, Gualberto was one of ten Brazilian leaders selected to participate in a roundtable with President Barack Obama in São Paulo due to his artistic work and social involvement such as in Project Row Houses -Round 48, in collaboration with DS4SI in Houston.

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