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Ataque a Bienal

Cripta Djan, <em>Ataque a Bienal</em>, 2008. Fotografia digital documentando a ação. Cortesia da artista.
Cripta Djan, Ataque a Bienal, 2008. Fotografia digital documentando a ação. Cortesia da artista.

A pixação não é como a pintura de muros coloridos pela cidade, o grafite. Ao contrário, é a tinta preta que desafia a dinâmica do poder na cidade e a atual ordem social. O pixador usa o pixo como uma resposta à segregação espacial da cidade através desta escrita sem autorização em qualquer uma de suas superfícies. O que há pouco tempo ocorria apenas nas grandes cidades brasileiras, se espalha por todo o país. Por enquanto só acontece no Brasil, mas em breve se espalhará pelo mundo.

Em 2008, eu já era uma liderança no movimento da Pixação em São Paulo. Eu comecei a pixar com 12 anos, com 16 eu já escalava prédio de 30 andares para pixar, eu já era lenda. Com 20, eu passei a documentar a cena da pixação. Isso me deu muito prestígio dentro do movimento no sentido de ter o respeito da galera que estava na atividade e dos caras da antiga, porque eu produzia dois selos de vídeo de pixação que eram a única mídia que a gente tinha. Então, isso me dava muita credibilidade. O Rafael Augustaitiz, que é um mano da quebrada, também é artista. Passamos a ler textos juntos, conhecer outros artistas. Começamos a entender o que era esse campo da arte e o que dava para fazer. Foi ele quem me ajudou a entender o porquê pixo é arte e não apenas vandalismo.

Numa edição anterior a 28ª Bienal de São Paulo, um artista até falou que era pixador. Peraí, para ser pichador, o cara tem que ter um currículo, tá ligado? Não basta ser pixador de banheiro de escola. Tem que ter uma trajetória dentro do movimento, dentro do circuito. Não é só o cara sair por aí e dizer que é. Então, foi muito legal colocar em cheque essas questões também através da nossa intervenção. No dia da abertura da Bienal de 2008, nos reunimos em cerca de 40 pessoas para um ato de desobediência civil, de reivindicação simbólica ao direito de uso da cidade, em especial de lugares que não foram planejados para a gente estar lá. Nesta intervenção, reivindicamos o uso da cidade por parte de todos e não só daqueles que atendem ao interesse do patrimônio privado. Nós pixamos as paredes do segundo andar do edifício da 28ª Bienal deixado completamente vazio pela curadoria da mostra. Os curadores haviam dito na mídia que o espaço estava aberto ao diálogo com a sociedade, aberto a intervenções urbanas. Nos sentimos convidados. A nossa ação durou poucos minutos até que a equipe de segurança do evento nos agrediu e colocou em xeque a coerência da fala do curador. Afinal, depois da intervenção do nosso grupo, ele tentou nos reprimir e Caroline P. da Motta, uma das pixadoras do grupo, foi presa. O que por sua vez colocou a questão de classe em xeque na grande mídia. Como uma mulher que pixa uma parede branca fica presa 54 dias e na mesma época um banqueiro, o Daniel Dantas, tinha roubado milhões e ficou preso apenas tres dias? Até o ministro dos direitos humanos, no parlamento dos direitos humanos, manifestou esta contradição publicamente.

Existe um lance de tradição do pixo que move a nossa vida. O cara trabalha, tem as suas responsabilidades e ama a pixação. É a vida secreta do cara. Às vezes, o patrão daquele cara nem sabe que ele está dando ordens em um ídolo das ruas, numa lenda. Para o patrão, ele é apenas um funcionário, tá ligado? É importante enxergar esta questão social. Tem cara que só tem o pixo como algo que ele se sente privilegiado na vida, entendeu? De fato, a pichação está muito ligada à nossa vida, a nossa rotina, ao nosso convívio. A gente preserva amizades construídas dentro da pixação de mais de vinte anos. Sempre fazemos festas, churrascos, tem os points, nossos encontros de trocas entre pixadores, e todas estas interações. O pixo é um movimento muito mais de interação do que de rabisco, entendeu? Tudo isso está envolvido.

Eu fico feliz de naquela idade ter a maturidade, ter a percepção de fazer aquela intervenção junto com Os + Fortes da forma como foi feita. Se apropriando da proposta curatorial, através das palavras do próprio curador. Ele apareceu na televisão convidando a sociedade a discutir a questão do vazio no segundo andar do pavilhão do edifício projetado por Oscar Niemeyer e Hélio Uchôa, deixando o andar totalmente vazio. Por essa razão, a 28ª Bienal de São Paulo ficou conhecida como a Bienal do Vazio.



Liberte os Urubus

Sabe, a 29ª Bienal de São Paulo já foi outra proposta. A intervenção de lá atendeu a outra questão. Porque a gente era artista credenciado pela mostra. Então, já foi um questionamento por dentro. Porém, na mesma época, um grupo de pixadores foram presos na cidade de Belo Horizonte acusados de formação de quadrilha. Enquanto isso, a gente estava participando da Bienal de Artes de São Paulo e tendo o reconhecimento de uma instância máxima da cultura. A gente não podia ficar indiferente. Tivemos uma reunião com os curadores da Bienal, Moacir dos Anjos e o Agnaldo Farias. Eles disseram: "Essa Bienal está aberta para qualquer discussão política." Eles foram bem incisivos. Foi quando minha ideia de intervenção lá dentro amadureceu. Agora eles deram o aval! Mais ou menos como o outro convite da outra Bienal de 2008. A gente se apegou na proposta curatorial, nós nos apegamos a isso.

Registro da ação <em>Liberte os Urubus</em>, 2010. Arquivo Cripta Djan.
Registro da ação Liberte os Urubus, 2010. Arquivo Cripta Djan.

Havia três urubus presos dentro da instalação do artista Nuno Ramos. Isso estava repercutindo. Aí, eu decidi criar uma analogia entre essas aves silvestres presas nesta instalação do Nuno Ramos com os meus parceiros que estavam presos em Belo Horizonte. E essa analogia entre os pichadores e os urubus se tornou muito forte, porque descobrimos que aqueles animais estavam presos por meio de uma falha na autorização, segundo os órgãos ambientais responsáveis. Foi aí, que eu decidi escrever “Libertem os Urubus e os Pixadores de BH” na obra de Nuno Ramos e não consegui terminar a frase.

Eu queria mostrar que mesmo estando inserido dentro da instituição como artista credenciado, eu tinha autonomia como pixador. Como eles deram abertura, como ali era um campo aberto a qualquer discussão política, eu me apropriei disso. Aqueles animais não deviam estar ali dentro da Bienal, num prédio confinado, com três caixas de som nas orelhas deles, imagina? Os bichos são livres, são animais selvagens. Eles não são bichos domésticos. A intervenção criou um elo entre a gente e um grupo de defesa dos direitos dos animais. A gente ajudou a causa deles, a criar repercussão e também a dar visibilidade a respeito da represália que os meus amigos em Belo Horizonte estavam passando. O Ministério Público acusava os pixadores de formação de quadrilha como justificativa para prendê-los na cadeia. Um deputado entrou na disputa e ajudou a libertar meus amigos. Mas os caras ficaram presos quatro meses. Eles saíram da cadeia mais ou menos no mesmo período em que os urubus tiveram que sair da Bienal. Foi muito louco isso, foram duas vitórias. A intervenção na Bienal foi muito bem-sucedida em termos políticos.

Por outro lado, eu nunca temi a minha vida em um rolê de escalada, de pixação na altura de 30 andares, como eu temi aquele dia. Olha, eu quase morri. Sem zoeira, foi o dia em que eu mais temi a minha vida. Porque os seguranças da Bienal de São Paulo me agarraram durante a ação, eles estavam apertando tão forte minha garganta, eu não conseguia mais respirar nem falar. Eles me levaram para uma salinha próxima a instalação do Nuno Ramos, eu sendo enforcado enquanto outro segurança estava dando socos no meu estômago. Eu nem sentia mais nada. Foi quando o chefe de segurança percebeu que havia perdido o controle total da situação. Ele abriu um portão próximo a sala e me jogou para fora do prédio da Bienal. Ele percebeu que os demais seguranças iriam me matar. Esse cara salvou a minha vida. Tá ligado? Ele salvou a minha vida.

De qualquer forma, em todas as Bienais eu tinha um dilema. Eu podia preservar as relações e chegar na rua é ser vaiado. Ou esperar chamarem a polícia nas instituições e chegar na rua e ser ovacionado. A gente escolheu o caminho que era aparentemente o mais difícil, mas para a gente, sei lá...seria uma coisa muito de essência. Se voltasse o tempo eu faria tudo de novo.



Cripta Djan (1984) é natural da cidade de São Paulo. Pixador, Artista Visual, Djan é uma das lideranças do grupo Os + Fortes, coletivo articulado em torno da prática da pixação em diferentes cidades brasileiras. Sua atuação política e artística tem lhe conferido a atenção de documentaristas como os irmãos Roberto T. Oliveira e João Wainer, Amir Arsanes além de convites para a participação em inúmeras exposições de artes visuais. Entre elas, destacam-se as participações na 29a Bienal de São Paulo (2010); Fundação Cartier (2009) e Bienal de Berlim (2012).

Contributor

Cripta Djan

Cripta Djan (1984) is from the city of São Paulo. He is a pixador (practicing a local form of tagging) and a visual artist. Djan is one of the leaders of the group Os + Fortes (The Strongest), a collective formed around the practice of pixação (“aggressive tagging”) in different Brazilian cities. His political and artistic activities have earned him the attention of documentary filmmakers such as the brothers Roberto T. Oliveira and João Wainer, and Amir Arsanes, as well as invitations to participate in numerous visual arts exhibits, including at the 29th São Paulo Biennial (2010), The Cartier Foundation (2009) and the Berlin Biennial (2012).

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