The Brooklyn Rail

FEB 2021

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FEB 2021 Issue
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A Qualquer Hora Carne Dura

Minha terra não tem palmeiras, nem cantos de Sabiás. Nesse descampado, não há mato e tão pouco cães sem dono e de caminho encruzilhado.

Nesse deserto idílico, acha-se feio o que não é miragem assimétrica de si. Sê íntimo na minha terra arrasada. Em campo de ossos onde morrerás morte vil da mão forte por um golpe de Ibirapema, institucional crueira de maniva.

De pau na moleira, meus heróis morreram imberbes e os cassetetes de Pau Brasil passeiam numa boa, onde a burguesia ainda come a minha carne e a tem dura entre dentes.

Dita dura, carne Amargosa.

Lugar de passarinhos que entre palmeiras nunca cantam, sabias? Ó, incautos sabiás.

Dito de Amaral a Amoral. Meus heróis pretos e mulatos morreram imberbes.

Celebra “moderníssima”, a carne mais barata ainda é a do negro aquilombado no Morro da Favela, às margens do Vasa Barris. Posto que às margens do Ipiranga é derrisão hegemônica.

Modernissimamente barroco como um antropófago em suas tripas e com sangue vazado cordialmente. Como sim e estou comendo. Comam a carne mais barata do negro da terra no desterro de dois mil e vinte contínuos.

Vinte e dois reflexos de Gonçalo-Alves estendidos ao rés do chão sem que Gonçalves Dias e I-Juca Pirama nas mãos dos Timbiras ou os Andrades modernistas sem saber, relatassem o acontecido literário. Enquanto troncos de bananeiras de peso esquálido e apequenados desaparecem no sinistro da história.

Evisceradas pororocas não versadas de “Os Sertões" e a “A Guerra do Fim do Mundo” às margens do suor mulato na corrente do Vaza Barris entre Canudos e a “Matadeira” no Morro da Favela. Suspiros saudosos da promessa de nação. O Navio Negreiro é abatido e naufraga no mais árido Brasil Raso da Catarina na Bahia, vaza sem piedade nas mãos de Dilermando e sua amante ou a mando do Pré-Modernista indigente.

Às vésperas das cinzas de uma quarta ladainha manifesta.

Mal dito, dito isso mesmo, modernismo que ainda nos seus intestinos, as minhas entranhas tens não digeridas. Doce e indigesto manifesto para Amargosa.

Amargosa transbordante na Pindaíba do Recôncavo; Vaza Barris chupados de tutano oco no Morro da Providência urticante avizinhado e apinhado.

Sangue pisado em cachaça e jurubeba via tarraxas abertas por pequenino gotejo. Embriago-me às vésperas das cinzas de um quarto gole.

A favela vaza memórias de cheiro de fumo de corda que pagam a carne mais barata à gente na outra margem atlântica.

Canudos sangra em festa moderna que celebra o incômodo que tenta o esquecimento.

Às vésperas das cinzas de uma quarta ladainha, manifesto um terço afogado, calado e desterrado.

Só terra amarga. Soterra lancinante a favela que ainda vaza com a truculência da máquina.

Descampados Matos, a qualquer hora Gregório no passado contínuo ainda diz triste Bahia... Triste Brasil, ó quão dessemelhante no meu calado desterro que vaza incontinente.

A ti tocou-te a máquina mercante de vinte e dois mortos a qualquer instante para ti. Máquina.

No lodo margeante embebe suposto brado do Ipiranga em menosprezo subjacente.

Tanto negócio e tanto negociante civilizado. Culto e oculta dos pretos a carne regurgitada por Bandeirantes de tez alva. E de cara, susto. Susto o diferente e incômodo no mal-estar da festa que celebra eu servido no banquete à gente douta e de linhagem. Minha identidade destituída em desacato à minha raça mestiça e desterrada por ordem judiciosa executada por milícia “quatrocentona” de bandeiras implacáveis.

Cocorobó à véspera das cinzas de uma quarta a mando do manifesto antropófago indigente em rito vazio.

Mastro atravessa o peito de doze pueris e hasteia a bandeira do esquadrão de elite para festa no Cabula com corpos de garotos da Vila Moisés em dezessete do primeiro de dois mil e quinze, ...e seus doze corpos são servidos à sociedade indigente.

A favela vaza em labaredas a cada vinte e dois instantes. E ninguém faz ou diz nada, pois o mundo tem fim aqui.

“Mê’á’ré txihí mê’á petoĩ’ré apetxiênã hãgnahay hũ iẽ pahuré”

Extirpar essa estirpe mestiça, parda e preta, diz o lema aos com não linhagem de quatrocentos. Só contagem em vinte e três do sexto de um mil novecentos e noventa e três em que, Paulo Roberto de Oliveira, onze anos; Anderson de Oliveira Pereira, treze anos; Marcelo Cândido de Jesus, quatorze anos;Valdevino Miguel de Almeida, quatorze anos; "Gambazinho", dezessete anos. Leandro Santos da Conceição, dezessete anos; Paulo José da Silva, dezoito anos. Marcos Antônio Alves da Silva, dezenove anos. Eis o banquete que se atualiza.

“Ser índio é ter um futuro com horizonte a sonhar”.

Corpos vazados por calibre doze a cada vinte e dois instantes.

Em centenário breve comemorarei enquanto civilizado na semana de vinte e dois. Aí, cantarei e contarei quantos foram servidos a cada instante.

Meus heróis morreram imberbes.

A Negra jaz ama de leite e a qualquer hora é comida, e seu filho arrancado de si, pois a carne mais barata é negra.

“Lati jẹ dudu ni lati ni ọjọ iwaju pẹlu ibi-afẹde ala”, afirma um jovem preto ou pardo

Seios vazam a perda a cada vinte e dois instantes.

Sem caráter algum, carne púbere, doce em vida amarga de cismar caipora com caipirinhas á Macunaíma.

Amargosa, minha terra, vaza e transborda a cada vinte e dois instantes uma festa esfuziante.

Cabula. Candelária. Canudos e Bendegó em chamas queimam na fricção d’A Negra em vinte e dois instantes.

Semana da chacina na Candelária ou o desaparecimento e morte de Davi Fiúza que a mais de cinco anos aterroriza a mãe. Morto aos dezesseis anos com mestres das técnicas de morte em Salvador.

Na semana de vinte e dois, a qualquer quase instante, vinte e dois ou mais quase crianças estão ao rés do Brasil.

Dessarte.

Você já foi à Bahia, nega?
Não?
Então vá!

Caetano Dias
Salvador, dezembro de 2020



Caetano Dias, <em>Lago Indigente</em>, 2008. Instalacção composta de um corpo em acçúcar fundido (sólido) e vídeo projecção de um lago paradisiíaco. Cortesia da artista.
Caetano Dias, Lago Indigente, 2008. Instalacção composta de um corpo em acçúcar fundido (sólido) e vídeo projecção de um lago paradisiíaco. Cortesia da artista.



Caetano Dias (1959) é natural de Feira de Santana, estado da Bahia. Seu trabalho visual inicia-se no final da década de 1980 através da realização de performances, intervenções urbanas e pinturas murais após sua formação em letras vernáculas na Universidade Católica de Salvador entre 1985 e 1987. Sua pesquisa articula o sagrada e o erótico através da realização de vídeos, pinturas, obras tridimensionais, instalação multimídia e fotografia digital. Entre 1995 e 2008, ministrou cursos nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Contributor

Caetano Dias

Caetano Dias (1959) was born in Feira de Santana, state of Bahia. His visual work began in the late 1980s through performance, urban interventions and mural paintings after his training in vernacular letters at the Catholic University of Salvador between 1985 and 1987. His research articulates the sacred and the erotic through realization videos, paintings, three-dimensional works, multimedia installation and digital photography. Between 1995 and 2008, he taught courses in the workshops of the Museum of Modern Art of Bahia.

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