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FEB 2021

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A Originalidade da Revoada Canibal

Thays Berbe, <em>Incorporação</em>, 2017. Fotografia digital. Cortesia da artista.
Thays Berbe, Incorporação, 2017. Fotografia digital. Cortesia da artista.

Assim como se fazem os patês de foie gras, desde criancinha me entucharam de eurocentrismo. Entupi ou não entupi, eis a questão. Não esperavam que eu me transformasse em uma antropófaga, previam um banquete. A princípio o próprio inimigo me obrigou a comer sua carne em vários rituais de passagem. Da infância para a adolescência até a vida adulta, carreguei a sensação de deslocamento diante do ideal, fome de respeito, escassez histórica, subnutrição espiritual. Fui me fartando de simplesmente engolir e saquei que precisava devorar, isso deslocou meu estômago para uma perspectiva específica e só assim consegui digerir os assuntos do mundo e voar com o sobrepeso. O que é canibalismo para uns é inescapável para outros. Entendo que a proposta de Oswald, de devorar o inimigo, mesclando-o ao primitivismo, parte de uma elaboração crítica sobre a cultura, mas em uma época onde o primitivismo vinha de uma antropologia de tradição racialista. O primitivo, no sentido de "origem", "dos primeiros tempos" é simplesmente minha ancestralidade, minha natureza, a parte que faltava, defendendo-se dos constantes ataques à própria existência.

Nunca estive totalmente adaptada à cultura do colonizador, e inevitavelmente recriei formas de interagir com ela. Desestabilizando-a de imediato apenas por ocupar espaços que não eram comuns às mulheres negras: a literatura e as salas de roteiro. Refletindo sobre a cultura dominante, o Pau-branco-Brasil, seus atos fálicos, sua virilidade egocêntrica e normativa, seu lado risível, seus gestos ferozes e insuficientes, sem deixar de admitir que o seu melhor e o pior lado também me constituíam. Gosto de encarar minha perspectiva como uma vantagem, não apenas para inverter os sinais que sempre tentaram me recalcar, mas sim porque historicamente a emancipação do pensamento também dependeu da capacidade de assimilação de perspectivas ausentes na produção cultural e intelectual dominante de sua época. Não consigo acreditar que temos outra discussão mais urgente e anterior para nos debruçarmos. Não consigo nem mesmo ler um novo filósofo queridinho sem racializá-lo, sem enxergar que seus privilégios de homem e branco velam seu ponto de vista, além de revalidar um projeto de dominação. Não lhes desejo a inércia, desejo a arte e a filosofia preta, refratando suas perspectivas em seu lugar reservado na mesa que serve foie gras.

Como posso agradecer à “contribuição milionária de todos os erros”, já que esses erros custaram a vida e a dignidade do meu povo preto e indígena? Como posso contornar a morbidez e, para além de denunciar nossa dor, me conectar com a poesia do cotidiano? Vomitando Trufas. Por todos esses erros de que sou resultado, me sinto vivendo o sonho de Oswald e o da minha bisavó. Expurgando a maldição da experiência da escravidão, livre para fazer minha macumba artística, imagética, literária, transcender o aprisionamento da realidade, e sonhar em não pautar apenas questões raciais.

Thays Berbe, <em>Maternidade</em>, 2015. Fotografia digital. Cortesia da artista.
Thays Berbe, Maternidade, 2015. Fotografia digital. Cortesia da artista.

Enxergo várias manifestações artísticas com grande potencial de força destrutiva, que defende a cultura oprimida, com uma reformulação crítica, irônica, bem humorada e popular. São artistas que trabalham na reinterpretação de suas supostas deficiências como superioridades. Quando MC Fioti, ex-ajudante de pedreiro, usa a “Partita em Lá menor”, de Johann Sebastian Bach, em produção caseira, e propõe o “Bum Bum Tam Tam”, um hit do funk brasileiro, em uma apropriação subversiva, acessando lugares de destaque e grandes casas de shows, vejo isso como uma conquista dentro da nossa conjuntura socioeconômica. Quando eu assisto vídeos da Carreta Furacão, um tipo de atração popular comum no interior do Brasil, onde dançarinos periféricos fazem passos inusitados e rebolam freneticamente, vestidos de personagens de histórias em quadrinho, super heróis, clássicos da Disney e outras referências da cultura pop, tirando a seriedade de sua franquia, provocando risos e contrastes contextuais, eu vejo a Antropofagia. A Antropofagia também está onde Paulo Nazareth está. Ele abandonou o emprego de faxineiro para se dedicar ao fazer das Artes Plásticas, cruzou o Brasil a pé até Miami, fotografando-se em diferentes pontos do trajeto com cartazes onde se lia, “Limpo seu banheiro por um preço justo”, colocando os efeitos do colonialismo no mapa das galerias internacionais. Alice Marcone, mulher negra trans, compositora e cantora de travanejo—que trabalha com uma mescla estética entre o Country e a cultura queer brasileira e MC Carol, preta e gorda fazendo sucesso com a música “Não Foi Cabral” denunciando o genocídio dos povos nativos, são uma tentativa de ampliar radicalmente a democracia, através da apreensão e atualização de um novo sentido sobre nossa produção intelectual, artística, filosófica e política. São artistas que apontam possibilidades de rupturas com as estruturas do pensamento conservador em várias esferas, justamente em um momento em que o Brasil ainda precisa gritar por liberdade de expressão, que precisa combater manifestações a favor do golpe militar, que não é laico, e em resumo, convive com um processo de colonização que ainda está em curso, que extermina pobres, pretas, índios, gays, lésbicas e transexuais. A Antropofagia é nossa estratégia artística de combate.

Antes de Oswald, o canibalismo já era um tema de alguns poetas da negritude de língua francesa e também se encontrava presente nas aspirações da intelectualidade do México e outros países da América Latina. O que tínhamos em comum era a experiência da escravização de povos, o contraste cultural, numa época em que os impérios francês e britânico retratavam os povos de todos os cantos do mundo como primitivos. Fomos igualmente influenciados pela temática indígena e pela presença preta, que são o cerne da antropofagia, e mesmo assim, o manifesto de Oswald não conseguiu discutir a fundo sobre a questão racial. "Tupi or not Tupi" é racial. O que ele chama de língua do povo é o "pretoguês". E mesmo sendo ameno em sua crítica, Oswald Andrade encontrou escárnio, indignação e incompreensão. Já era de se esperar, o grupo que se opõe a qualquer ideia nova, a qualquer mudança na ladainha das opiniões correntes, é sempre o mesmo: é o que condenou nos tribunais Flaubert e Baudelaire, é o que matou Zumbi dos Palmares, interrompeu Calabar de Chico Buarque, perseguiu Rimbaud, torturou Dilma Rousseff e ainda elege fascistas. Sabemos que há racismo em todas as esferas, mesmo nas mais progressistas, mas existe um grupo coeso, assumidamente racista, homofóbico, misógino, que odeia a diversidade e se fortalece justamente com esses discursos, que atravessam os séculos, seduzidos por uma antiquada proposta de superioridade e está sobrando aqui no Brasil.

Inicialmente, Oswald foi derrotado. Seu modelo nacionalista pau-brasílico não ganhou ênfase nas esferas de poder em sua época. Apenas uma década depois de sua morte, a partir da encenação de sua peça O Rei da Vela, dirigida por José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina em São Paulo, em 1967, no circuito do tropicalismo, Oswald pode ser defendido. Foram os tropicalistas que venceram a batalha iniciada pelo modernismo pau-brasílico. Não podemos esquecer que tanto os modernistas quanto os tropicalistas, apesar de terem a cultura preta e indígena como referências para suas propostas estéticas, eram majoritariamente brancos. Chamo a atenção para isso porque a Antropofagia enquanto movimento organizado, foi sempre tutelada por uma elite branca. Por uma questão estrutural e simbólica que a sustentou. É por esta lacuna que devemos enxergar a Antropofagia de hoje, questionando o olhar viciado das artes em legitimar um movimento a partir desta validação branca e principalmente promovendo pessoas pretas e indígenas a ocuparem esses espaços com autonomia.

Hoje não há um grupo organizado que reivindique artisticamente um novo modelo Antropofágico, isso já está plasmado em nossa cultura, mas talvez nos atrasamos em definir que as produções protagonizadas por artistas pretos e indígenas são um movimento de "refluxo meditativo", que recusa seu habitual condicionamento de subalternidade, objeto de estudo, referência secundária, empurrados goela a baixo. O protagonismo destes artistas é a peça essencial para conseguirmos chegar a uma vanguarda do pensamento contemporâneo com honestidade, o resto é mais do mesmo. Acho que isso talvez configure a "Brancofagia", o canibalismo da branquitude, o hackeamento do sistema, curativo e irremediável, (para o bem dos próprios brancos), para que um dia nos sentemos todxs à mesa, nos alimentando de novas utopias.



Thays Berbe (1985) é roteirista, artista visual e escritora. Bolsista do curso de Maestría en Guión na Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba, começou sua carreira escrevendo para a TV Cennarium Brasil e o canal E! Entertainment Television. Dentre outros projetos independentes que escreveu e dirigiu, foi roteirista da primeira e segunda temporada da série de comédia Todxs Nós - HBO, criada por Vera Egito. Roteirista da série Sintonia, criada por Kondzilla e produzida pelas Los Bragas para a Netflix. Integrou as equipes de roteiro da série infantil Nosso Mundo Zoo de Natalia Maeda na Boutique Filmes para Discovery Kids, e a segunda temporada de As Five criada por Cao Hamburguer para a Rede Globo. Selecionada para a primeira Bienal Black Brasil Art e publicada na revista O Menelick 2o Ato, através de sua convocatória de artes, também é escritora de contos na antologia Não Pretendia Criar Discórdia, lançada pelo museu Casa das Rosas e Editora Giostri.

Contributor

Thays Berbe

Thays Berbe (1985) is a screenwriter, visual artist and author. She is currently the recipient of a scholarship for the Master’s Program in Screenwriting at The International School of Film and Television in Cuba. She began her career writing for TV Cennarium Brasil and the channel E! Entertainment Television. Among other independent projects she wrote and directed, she was a screenwriter for the first and second seasons of the HBO comedy series Todxs Nós (All of Us), created by Vera Egito. She was also a screenwriter for the series Sintonia, created by Kondzilla and produced by Los Bragas for Netflix and was part of the team of screenwriters for the children’s series Nosso Mundo Zoo (Our Zoo World) by Natalia Maeda for Boutique Filmes for Discovery Kids, and the second season of As Five (The Five) created by Cao Hamburguer for Rede Globo. Berbe was selected for the first Black Brasil Art Biennial and published in the magazine O Menelick 2° Ato in its call for arts submissions. She is also the author of stories in the anthology Não Pretendia Criar Discórdia (I Did Not Mean to Cause Discomfort), launched by the Museum Casa das Rosas and the publisher Editora Giostri.

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